domingo, 13 de maio de 2007

APARECIDA DO NORTE



Por preguiça Para homenagear a missa feita pelo Papa em parecida do Norte, (Que por sinal interrompeu a transmissão de uma das melhores corridas da fórmula 1 nesta temporada), resolvi ressuscitar um texto meu de alguns meses atrás sobre Aparecida do Norte para que meus amados leitores mais novos possam saber mais sobre este pitoresco lugar...

Um lugar onde criaturas com aparência pouco comum recitam Cânticos ao raiar do dia. Em que comidas exóticas são comidas diretamente com as mãos e que atitudes pouco coerentes são tomadas uma após a outra...

Não meu amigo, eu não to falando de nenhum RPG, filme de Zé do Caixão, ou coisa que o valha. O buraco aqui é mais embaixo.


Eu me refiro a uma
EXCURSÃO OU ROMARIA A APARECIDA DO NORTE!

Eu sei que agora muita gente vai exclamar: Caray! Eu esperei um dia inteiro e dei mais uma visita no counter desse corno pra isso? Pois é, mas realmente um evento desses tem um potencial bizarro pra lá de satisfatório pra um post aqui, e eu, com minha farta experiência dos tempos de muleke, onde a romaria pra Aparecida do Norte todo ano era um evento de lei, assim como a ida de farofeiros ao Boqueirão da Praia Grande, resolvi que isso seria um relato circunstancial. Além do que como a maioria de meus leitores é composta de nerd ateus, eu achei que nunca tinham visto tal evento e resolvi partilhar estas reminiscências com eles. Não gostou? Primeiro leia, e se continuar não gostando, aí sim pode ir pra Pata que o Pariu. Agora vamos ao que interessa:
Pra quem não é de São Paulo, ou Quiçá do Brasil, Aparecida do Norte é uma cidade famosa porque uns pescadores que não tinham nada pra fazer uma cacetada de anos atrás foram pescar cocô em um rio e acabaram achando uma imagem de Santa sem cabeça. Como naquele tempo não era normal jogarem todo tipo de porcaria em rios e córregos, os caras resolveram procurar a cabeça da imagem por dois motivos: 1 – Porque aquilo parecia um sinal dos céus. 2 – Porque como o lixo no rio era menor, a chance de achar uma bota velha ou camisinhas usadas era nula, então valia a pena. Se tivesse sido achada hoje em dia, a imagem tinha ido pra reciclagem da CETESB, vendida a quilo no ferro velho do Cosme, se fosse feita de metal, ou mesmo leiloada no Mercado Livre. Mas aqueles eram outros tempos, e uma imagem de Santa achada no rio tinha seu valor espiritual.

Consta a lenda, que assim que foi achada a cabeça da Santa, uma caralhada de peixes pulou dentro do barco. Sei lá se por um milagre ou porque estavam usando a imagem como casa antes dela ser fisgada, mas enfim... Esta imagem foi levada pra igreja do fim de mundo...Digo, lugar e evidente que como não tinha muito o que fazer por lá a historia da imagem milagrosa que surgiu no lago espalhou-se, e em um país como o nosso, que a despeito de a Virgem Maria não ter feito nenhuma aparição pra ninguém até hoje, neguinho louva até imagem dela em mancha de vidro de janela, foi apenas uma questão de tempo pra que as multidões de fiéis começassem a afluir pra pequena cidade. Daí pra trocarem o nome da cidade e começarem a explorar comercialmente o fenômeno da santa, bastou apenas um pequeno empurrãozinho do marketing da Igreja católica. Mas chega de história e passemos ao evento: Existem duas modalidades de ida a Aparecida do Norte: Em grupo (Ou Romaria) e Solo (Ou turística), e as duas diferem basicamente na ordem de eventos; Na modalidade solo, os praticantes fazem o circuito Basílica – Refeitório – Feirinha de bugiganga, ao passo que os praticantes da modalidade romaria fazem o percurso Feirinha – Refeitório –Basílica. As duas modalidades também diferem no quesito meio de transporte. 

Os praticantes solo vão de carro / moto individual, e apesar dos estacionamentos proibitivos, saem com o patrimônio benzido (O Carro, seus doentes!) já os Romeiros vão de fretadão com direito a canção de abertura da hora da Ave Maria por 600 quilômetros de ida e volta. Um must para poucos eleitos. Dormir durante a viagem? Isso é coisa pra gente de pouca fé. Mas como a modalidade turística é menos interessante e eu tenho menos experiência com ela, uma vez que minhas idas a Aparecida do Norte nos tempos de muleke eram de romaria mesmo, abordarei esta modalidade. Tudo começa aproximadamente à 4 da matina, onde se os rojões de 12 tiros anunciando que falta 1 hora pra romaria partir não te acordarem, o programa do Zé Bétio (Radialista caipira daqui de SP) tocando “Galopeira”no talo te acorda. Cabe citar que naquele tempo que eu era muleke (To na casa dos 30 agora), não tinha Funk Pancadão, o que com certeza, nos acordaria a todos ao primeiro berro de “Só tem Popozuda! Solta a Batida DJ!!!” Mas destoaria do caráter ecumênico do evento. Uma pena. 

Assim que todos se arrumam (Traduzindo: Colocam roupa de missa), e arrumam a sacolaiada com todo tipo de croquete e salgadinho de pobre imaginável (Sim, o frangão com farora está presente), partimos todos. Ao chegar ao local onde os Ônibus estão (Geralmente em uma ladeira, e lá em cima), assim que recuperamos o fôlego e acudimos aquela tia veia que subiu queimando óleo ladeira acima, podemos colocar a caixa de isopor com guaraná e tubaína no chão, e apreciar a fauna local antes do embarque. Não há muita variação: Beatas de tudo quanto é tipo, aquele vizinho desocupado que ta em todas (Na semana anterior ele tinha ido ao show do Restart), criançada que nessa hora não ta fazendo muita zona porque assistiu televisão até tarde e agora ta com um sono da cachorra, tiozões barrigudos, e velhos de todos os tipos. A ultima excursão em que fui tinha tanto idoso que a apelidei carinhosamente de “Romaria Geriátrica”. Não sei porque velho gosta tanto de igreja, deve ser pra em caso de emergência garantir extrema unção, ou mesmo um velório self-service, mas enfim... 

Após a colocação das malas no bagageiro (Que são jogadas em uma desordem tal que o tempo pra acha-las é no mínimo o dobro do tempo pra guarda-las, o que nunca leva menos de 45 minutos), podemos partir, mas tendo o cuidado de malandramente levar conosco a Tuppeware com torta salgada, e no mínimo um Tubaína pra poder se garantir entre uma rezinha e outra. Ao longo da viagem, atividades como ouvir música ou mesmo ler são impossíveis, não por que seja proibido, mas sim porque, o clima de “Novena sobre rodas”, impregna o buzu com beatas rezando terço e cantorias ecumênicas (Geralmente desafinadas) de tal forma que se você for um pouquinho mais crédulo e susceptível, irá ver o Arcanjo Miguel pairando sobre a estrada e as trombetas do apocalipse troando. Uma experiência transcendental, ou, se você tiver um pouquinho de senso crítico uma chateação quase insuportável. 

Felizmente quando eu era criança eu tinha pouco senso crítico pra achar chato, e pouca imaginação pra ver anjos. Talvez se isso tivesse ocorrido hoje eu seria um novo Padre Marcelo e faria musica sacra em ritmo de hardcore. Mais um propagador da palavra divina que o mundo perdeu. Na estrada, sem novidades, salvo algum acidente em que todo mundo bota a cara na janela pra ver os restos de algum motoqueiro, ou mesmo um pneu furado. A Falta de ter o que fazer impera. A reza chega a tal ponto e volume que os que tem mais semancol ficam esperando uma mão gigante descer dos céus e uma voz trovejante dizer: - Mais baixo! Eu não sou surdo! E tudo segue nesse pé até o primeiro Rancho da Pamonha que aparecer. Ali a gente desce do busão, pega uma fila ducaraio pra ir no banheiro, comprar o que quer que seja, pedir informações ou até mesmo pra achar o caminho de volta até o ônibus. Sempre na hora em que se está saindo do estacionamento alguém grita: - Espera! Espera! Ta faltando gente! Inevitavelmente, alguma véinha não achou o caminho de volta pro busão ou mesmo entrou em algum de outra romaria por engano. E toca esperar até acharem a anciã. De volta pra estrada, só mato na lateral e mais p*rra nenhuma. Se você tiver sentado na janelinha do lado certo até pode dar sorte de ver uma borracharia fuleira ao longe ou mesmo um monte de neblina. Emoção a toda prova. Depois de muito pasmar alguém berra a plenos pulmões assim que você ameaça pegar no sono:
- OLHA LÁ A BASÍLICA!!!


De fato, é a primeira coisa que se vê quando está chegando. O bagulho é grande pra dedéu! Mas o legal é que após ver a basílica, você vai ter um tempão pra admirar as formas arquitetônicas, uma vez que TODOS os ônibus de romaria do Brasil chegam ao mesmo tempo fazendo com que a entrada da cidade de Aparecida fique com um Rush digno da Avenida Paulista às 17:56. Leva pra entrar quase o mesmo tempo que leva pra chegar lá, isso contando a parada no Rancho da Pamonha e uma paradinha prum xixizinho eventual (A tubaína fez efeito).
Se você veio de Romaria, existe 99,99 por cento de chande de seu ônibus parar ao lado de uns 47 iguais, em um imenso estacionamento sem pontos de referência. O que faz com que pra voltar até ele você tenha do começar a procura-lo mais ou menos ao meio dia, se a romaria for voltar pra são Paulo às 4 da tarde. Coisas da fé.


Assim que a turma desembarca, ocorre uma dispersão inacreditável em sua velocidade, onde uma velhinha de 74 anos que estava ao seu lado some com uma velocidade tão grande que a gente chega até a pensar se ela não fez um curso de ninjitsu por correspondência, mas assim que você olha pro lado percebe que a fumaça não é de uma bomba ninja, e sim da churrasqueira, armada e acesa em um tempo tão baixo que faria a troca de Pneus da Ferrari parecer um desfile de tartarugas em areia fofa.


Aí, meu amigo, salvo se você for arrastado pra uma das lotadas missas matinais, você está livre pra fazer o que bem entender. Mas vou enumerar umas paradinhas básicas:

Passarela: Te leva do basilicão pra igreja velha dos pescadores desocupados onde tudo começou. A parada é gigantesca e muito alta. No lugar mais alto, ela passa sobre a rua com a feirinha de bugiganga lá embaixo. Impossível olhar e não ficar com vontade de dar uma cuspida pra ver se acerta alguém. Carecas são alvo preferencial e prioritário, seguidos das velhinhas e vendedores de água. Se acertar algum padre ganha bônus. Se for o Bispo, vai pro inferno sem escalas pobre herege.

Normal ver neguinho pagando promessa, atravessando a bagaça de joelhos, andando nas mãos ou até mesmo lambendo o chão. O numero de pagadores de promessa na passarela só é inferior ao número de desocupados que fica olhando o martírio dos caras. Mundo cão ao vivo e sem cortes. Chamem o Datena!

Ao terminar de subir a passarela você se depara com um monte de lugares com tranqueiras que você nunca quis comprar a um precinho que te faz mudar de idéia. Mas calma. Guarde sua grana pra hiper feirinha. Ta bom. Pode comprar um fitinha de R$ 2,00 que mais tarde terá seu preço baixado pra R$ 0,10. O dinheiro é seu mesmo.

Chegando à igreja velha, tire uma foto na frente, mas não entre. Não tem nada de interessante lá uma vez que a Santa foi pro basilicão faz um tempão. Na volta, não faça a besteira de tomar o teleférico, pois ele não desce nem a metade do caminho e te deixa com cara de tacho. (Adivinha como descobri isso?)

Depois de voltar lá de cima sem ter visto p*rra nenhuma que justificasse a subida, vamos ao basilicão. Esqueça a maioria do lugares e vá direto pra sala das promessas.


O lugar é uma boa pedida, não porque atesta a fé dos fiéis, mas sim porque é inacreditável as tranqueiras que neguinho leva pra lá. Tem capacete de Piloto de formula Indy, arma de fogo de tudo quanto é tipo, celular furado de bala, panela de pressão explodida, roupa queimada, e fotos, muitas fotos. A sala é (literalmente) forrada delas em uma espécie de galeria da fama da fé. A sala das promessas é de longe o lugar que eu mais gosto em Aparecida do Norte. Recomendo com crocância. O único senão é que como qualquer lugar lá, a muvuca é fenomenal. Peidar sem ser notado é absolutamente impossível.

Saindo da sala das promessas, vá até a sala das velas, mas não fique muito que o lugar é quente pra dedéu. Pode torrar sua salsicha (ou esfiha)...
Pode ser uma boa nos dias frios, mas se você olhar no mapa do Brasil, verá que Aparecida do Norte fica entre o Rio de Janeiro e SP, não sendo um lugar exatamente refrescante, portanto, se não gosta de suar, evite a sala das velas. E não peide. Pode provocar um incêndio de proporções bíblicas.

A esta altura já deve ser hora do almoço e você tem duas opções, votar pro ônibus (Que ta longe pra kct!) ou ir tentar comprar algo na área de alimentação. É uma boa pedida. Não fosse pelo fato de todo mundo ter tido a mesma idéia ao mesmo tempo. E tome fila!


Após o repasto (cavalo é a mãe!), dirija-se à parada mais esperada do dia. A feirinha. Lá tem tudo o que é possível de um camelô vender lícita e ilicitamente. Mas infelizmente com a facilidade de importação atualmente muito do que se acha por lá tem em camelôs por aqui também. Bom era no meu tempo de muleke que tinha produtos contrabandeados diretamente do paraguai que eram difíceis de achar por aí. A Globalização do contrabando tirou boa parte da graça. Mas não toda. Ultima vez que fui comprei um binóculo maneiro a um bom preço. O ruim da feirinha é que até você anda-la toda já é hora de ir embora.


Voltando ao ônibus, você já pode encontrar a veiarada derrubada após a maratona da fé, e o motorista louco pra ir embora, mas sempre ocorre a reação em cadeia. Alguém resolve sair pra comprar algo e demora pra voltar. Outra pessoa vai atrás pra procurar a primeira. Assim que essa pessoa sai, a que havia ido comprar algo volta. E assim sucessivamente até que alguém resolva amarrar as pessoas nos bancos evitando que umas procurem as outras eternamente. Como era de se esperar, na hora em que o ônibus ta saindo alguém constata que a véia que quase ficou pra trás no rancho da pamonha foi esquecida de novo. Toca esperar alguém achar a decrépita e conduzi-la aos safanões pro busão, cuidando de entupi-la de remédios pra dormir e garantindo assim que ela não desça no Rancho da pamonha na volta.


A viagem de volta é mais uma reedição da de ida, mas menos animada e (Felizmente) com menos reza, uma vez que o gás das velhinhas já acabou. E por mais que seja divertido ou interessante a gente sempre fica louco pra chegar rápido.


Pra fechar com chave de ouro, sempre alguém esquece algo dentro do ônibus e só lembra quando o mesmo já se foi. Bom pro motorista que leva um brinde pela paciência.
Programão, não acha?

Agora vou ver o compacto da Fórmula 1...

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